Quem é a vítima?
Se você (ou seu namorado) levantou a mão para dizer "Sou eu, sou eu a grande vítima dessa história", prepare-se para esta revelação. Como numa boa novela de Manoel Carlos, todos têm responsabilidade pelos conflitos - até o par romântico! E quer saber em que momento os dois entram em cena? Quando incentivam a intromissão sem perceber. "Me senti muito bem recebida na casa da minha sogra", conta a auxiliar administrativa Mariana, de 27 anos, de São Paulo. "Depois de um ano e meio morando sob o mesmo teto, ela passou a se meter na minha vida profissional e pessoal. Reclama porque não aceitei seu dinheiro, porque tomei um pouco do seu suco light. E consegue fazer com que eu brigue com o filho dela. Fico pisando em ovos, pois tenho de agir da forma como a mãe dele espera", lamenta, sem enxergar que alimentam a situação ao dependerem financeiramente. Essa é uma das maiores brechas que um casal pode dar à intromissão. "Aqui começa a chantagem emocional. O dinheiro faz com que os pais se sintam no direito de dizer o que é bom ou ruim. Se Mariana e o namorado forem à luta e caminharem com as próprias pernas, o poder da sogra vai diminuir", garante Ilana.Mais ciladas que facilitam o canal de interferência? Uma delas é quando ambos bancam superfilhos, superirmãos, supercunhados e querem resolver os problemas de todo mundo. Então, emprestam dinheiro sem limites, trocam os momentos a dois para dar atenção à família e assim por diante. Resultado: deixam os "beneficiários" mal-acostumados, sentindo-se no direito de reivindicar mais. "Casais assim absorvem os problemas externos para agradar, ser aceitos e receber elogios do tipo 'Meu filho é excepcional'", explica Iracema. Outro facilitador da intromissão tem a ver com a mania de ir chorar no colo da irmã, da mãe, da avó toda vez que o namoro entra em crise. Porque vira amor a três, quatro, cinco... "Um casal que busca sempre ajuda fora acredita que não vai conseguir dar um passo por conta própria", continua a terapeuta. E a gente sabe que conseguirá.
Mais unidos que nunca
Bem, agora que você já está ciente de que as suas atitudes e as do seu amor contribuem para um relacionamento familiar difícil, vale alterar o enredo para um final feliz. O primeiro passo é evitar brigar por causa dos parentes. Imagine a cena: o seu pai vive dizendo para economizarem centavos a fim de comprarem um apartamento. O dele acha melhor investirem na carreira e deixarem o casamento para bem mais tarde. De qual lado ficar? Nenhum dos dois. "Na verdade, você e o namorado precisam formar um terceiro jeito de pensar. É hora de tecerem a própria rede de valores", ensina Ilana. "Esse é um processo que depende de amadurecimento, de autoconhecimento", avisa. Comece investindo no diálogo, negociando com o seu amor. "Ambos têm de aprender a ceder, bem como dizer claramente o que importa para cada um", orienta a psicóloga. Ir ao estádio com o pai pode ser algo tão prazeroso para o homem quanto fazer compras com a irmã é para a mulher. Respeitar essas diferenças fará com que a relação se fortaleça.Ajustados os ponteiros entre quatro paredes, ambos se sentirão seguros para estabelecer uma convivência mais saudável com as respectivas famílias. "Não há uma regra que valha para todos os casos. Em alguns momentos, será vital ser irredutível e colocar limites; em outros, valerá a pena aceitar ajuda", pondera Iracema. Trocando em miúdos, você e seu querido podem concordar que não há mal nenhum em pedir opinião sobre o melhor destino de férias, bem como comunicar que pretendem comprar duas passagens apenas. A publicitária Helena, de 28 anos, de São Paulo, acabou de encontrar esse ponto de equilíbrio: "Meu marido e eu nos mantemos o mais centrados possível no nosso relacionamento para que a opinião dos outros não interfira em nada. Muitas vezes ouço o que me falam, sinto o sangue ferver, depois penso que a vida é minha e ninguém vai comandá-la. Então, relaxo e tomo as decisões da maneira que queremos!"
Bandeira branca
Nem sempre a nova postura será aceita com tranqüilidade. Sua mãe pode ficar magoada ao notar que você não está cuidando do romance baseada na cartilha dela, o irmão dele se sentirá contrariado ao ouvir que não é mais bem-vindo à sua casa depois das 10 da noite... Ainda assim, é preferível encarar o conflito a botar panos quentes e colocar em risco a felicidade desse amor.O lado bom é que, mesmo a contragosto, os "invasores" se sentirão obrigados a recuar na intromissão, respeitando mais o seu relacionamento. A sogra talvez não vire aquela superamiga (afinal, ninguém muda de uma hora para outra), mas pensará algumas vezes antes de censurar o modo como você trata o filho do coração, e vice-versa. O que, cá para nós, já é um avanço.Outro reflexo dos limites é que você e seu homem deverão aproveitar mais o lado positivo da convivência com os parentes - todos sabemos que ela é valiosa. Vale dar uma chance para que seus irmãos, primos, pais, tios ajam como colaboradores, que vêm para somar. "A família contribui para que o casal dê passos importantes, como casar, ter filhos... Os pais, por exemplo, podem usar a experiência para aconselhar. A palavra-chave deve ser cooperação", fala Iracema. E vai ser muito mais fácil entender esse papel - e tirar proveito dele - segurando firme o leme do seu relacionamento.